PAULO AFONSO– Vamos para mais uma da série EU ESTAVA LÁ.
O complexo de bairros do BTN jamais viu algo parecido com o ato de campanha do dia 20 de setembro de 2024, a apenas duas semanas do encerramento da eleição municipal e da consagração de Mário Galinho (PSD) com votos para dar e vender sobre Marcondes (Progressistas), o segundo lugar.
Na concentração, adjacente ao terminal de ônibus, antes de sair em marcha retumbante, presenciei um constrangimento para o qual, quase dois anos depois, não sou capaz de defini-lo: um aliado quisera subir na proa do caminhão para mostrar que fazia parte do seleto grupo do futuro prefeito. Foi rejeitado. O homem me olhava com olhos de cachorro caído da mudança, ou por outra: aquele aliado se dera conta de que não tinha mais qualquer serventia. A eleição já estava no papo, e ele, era, carta fora do baralho.
Eu falava sobre a caminhada histórica, voltemos a ela. A comoção se explica por vários fatores: a organização das campanhas auxiliares foram muito bem orquestradas ao longo da campanha e no BTN atingiram o estado de arte; inúmeros candidatos bem e malsucedidos eram do complexo e souberam contaminar a tropa; por último e decisivo fator, o povo que desde 22 já havia escolhido (em sua maioria) Galinho, aproveitou o ensejo e reforçou a intenção de lhe dá a vitória já no BTN.
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Aquele início da gestão de Galinho, cercado por bajuladores, após uma eleição tão soberba em cima de um grupo político há trinta anos no poder, cegou o prefeito para o mais óbvio: cultivar perto de si os aliados naturais e enfrentar os dilemas do complexo como fora prometido em campanha. Deu-se justamente o contrário.
“Eu posso até não fazer campanha para quem eu vou apoiar, mas terei um carro de som ligado o dia todo contra os candidatos do prefeito”, disse a mim um ex-aliado de Galinho sob a condição de anonimato. A frente negativa recrudesce a cada dia e ganha contornos difíceis.
Há relatos sobre cenas de hostilidade enfrentadas pelo prefeito. “A população daqui nunca se sentiu tão abandonada como agora: lixo em vários pontos do bairro, não tem autoridade (local) a quem o povo possa recorrer, saúde muito precária e o clima é de revolta”, contemporiza outra fonte sob reserva.
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A verdade é que as campanhas versaram, grosso modo, sobre situações que não estavam ao alcance unicamente de uma gestão resolver. A de Galinho, por ser o antagonista, prometeu sem cerimônia.
Anabolizados pelas redes sociais cujas discussões acerca de problemas estruturais se dão sem qualquer profundidade a fim de garantir o engajamento, candidatos e eleitores se deixaram levar.
O que aflige hoje é a ressaca da realidade. Paulo Afonso vive em gravíssimo isolamento político. Não é mais sobre Chesf, turismo, projetos de irrigação da imaginação e crescimento econômico e social sonhados. É sobre sermos enxergados como povo que precisa de atenção, e que, portanto, deve ser priorizado por outros entes da federação.
Em último apelo, é preciso vencer essa mentalidade personalista e pensar a política como exercício coletivo.
Foto: Luan.